Criança de 2 anos não fala: o que é esperado e quando procurar ajuda
Publicado em · ACEI · A Casa da Educação Infantil
Criança de 2 anos não fala? Veja os marcos de linguagem da Caderneta e do CDC, os sinais de alerta da SBP, o papel da audição e quando buscar ajuda.
“Cada criança tem seu tempo” é a frase que muitas famílias ouvem quando dizem que a criança de 2 anos não fala ou fala muito pouco. Ela é verdadeira em parte. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) diz que essa frase deve ser ponderada “com muito critério”, porque existem marcos a observar e sinais que justificam avaliação. Neste guia reunimos o que as fontes oficiais consideram esperado na fala até os 2 anos, o que observar além das palavras e quando procurar ajuda.
O que é esperado na fala até os 2 anos#
A Caderneta da Criança (6ª edição, Ministério da Saúde) diz que, em torno de 1 ano de vida, o bebê já consegue falar algumas palavras além de “mamã” e “papá”. No quadro de marcos do desenvolvimento da Caderneta, os itens de linguagem aparecem nestas faixas:
| Marco na Caderneta da Criança | Faixa etária |
|---|---|
| Duplica sílabas (papá, dadá, mamã) | 6 a 9 meses |
| Produz “jargão” (conversa incompreensível) | 9 a 12 meses |
| Mostra o que quer, sem ser pelo choro | 12 a 15 meses |
| Diz uma palavra (sem contar nomes da família ou de animais de estimação) | 12 a 15 meses |
| Fala 3 palavras (mesmo critério) | 15 a 18 meses |
| Aponta 2 figuras entre 5 | 18 a 24 meses |
| Frases com 2 palavras, como “quer água” | 24 a 30 meses |
As listas de marcos do CDC, agência de saúde pública dos Estados Unidos, usam outro critério: reúnem o que 75% ou mais das crianças já fazem em cada idade. Por elas, aos 18 meses a criança tenta dizer três ou mais palavras além de “mamã” e “papá”. Aos 2 anos, junta pelo menos duas palavras, como “mais leite”, aponta coisas num livro quando alguém pergunta e usa mais gestos do que só dar tchau e apontar. Aos 30 meses, diz cerca de 50 palavras.
Entre os sinais de atraso de fala listados pela SBP no Documento Científico n. 148, de 2024, sobre crianças que não falam, o primeiro é “pouca ou nenhuma fala aos dois anos de idade”.
Não é só falar: compreensão e gestos também contam#
O mesmo documento da SBP separa dois lados da linguagem. A linguagem expressiva é o que a criança consegue comunicar, com palavras, gestos e expressões. A linguagem receptiva é o que ela entende: seguir um comando simples como “pegue o brinquedo”, responder “onde está a bola?”, reconhecer palavras do dia a dia. A SBP observa que algumas crianças compreendem bem antes de conseguirem se expressar com palavras.
Por isso, ao observar uma criança de 2 anos que fala pouco, vale reparar também se ela:
- entende e segue pedidos simples, sem precisar de gestos;
- aponta para mostrar o que quer ou algo que achou interessante;
- usa gestos como mandar beijo ou balançar a cabeça para dizer sim;
- atende quando é chamada e olha para quem fala com ela;
- tenta se comunicar de alguma forma, mesmo sem palavras claras.
Esses sinais não substituem a avaliação, mas ajudam a família a descrever a situação com precisão na consulta.
Audição: o primeiro ponto a checar#
A SBP afirma, no documento de 2024, que mesmo uma deficiência auditiva temporária pode atrasar o desenvolvimento da fala e da linguagem. A Caderneta da Criança lista sinais de atenção para a audição. Fique atento quando a criança:
- não acorda com barulhos nem reage a sons do ambiente;
- não atende quando falam com ela, ou só atende quando está olhando para a pessoa;
- fala pouco ou não fala;
- ouve rádio ou TV sempre em volume alto.
O exame de emissões otoacústicas evocadas, o teste da orelhinha, é obrigatório e gratuito em hospitais e maternidades para as crianças que nascem ali, segundo a Lei 12.303/2010. Um resultado normal ao nascer, porém, não exclui problemas que surgem depois. Quem avalia a necessidade de novos exames é o pediatra.
Criança de 2 anos não fala: quando procurar ajuda#
A SBP diz que, embora algumas crianças “se atrasem” e depois alcancem as outras, pelo menos a metade dos problemas de linguagem persiste. E defende que a intervenção precoce produz resultados melhores do que a tardia. O CDC, por sua vez, orienta a não esperar: se a criança não atinge um ou mais marcos, perdeu habilidades que já tinha ou se a família tem outras preocupações, é hora de conversar com o médico.
Na prática, leve a criança ao pediatra se, por volta dos 2 anos:
- ela fala pouco ou nada;
- não parece entender pedidos simples;
- não aponta nem usa gestos para se comunicar;
- perdeu palavras ou habilidades que já tinha;
- você ou a professora da creche têm dúvidas sobre a audição.
O pediatra é a porta de entrada. O documento da SBP descreve o trabalho de equipes que podem incluir pediatras, otorrinolaringologistas, fonoaudiólogos, neurologistas, psicólogos e terapeutas ocupacionais, conforme cada caso.
A SBP também registra que, no transtorno do espectro autista, o atraso na fala não é obrigatório, mas é bastante frequente. A maioria das crianças que falam pouco não é autista, e o contrário também acontece. A triagem para autismo recomendada pela SBP é feita nas consultas de 18 e 24 meses. Explicamos isso em sinais de autismo na primeira infância.
O que fazer em casa e na creche#
A Caderneta da Criança traz sugestões simples para estimular a linguagem:
- conversar muito, dizendo o nome das coisas e das pessoas e explicando o que está fazendo;
- comentar em voz alta o que o adulto e a criança estão fazendo, como quem pensa alto;
- cantar músicas e contar histórias de um jeito simples, para a criança repetir;
- mostrar figuras de animais e objetos e perguntar, por exemplo, “quem mia?”, “quem late?”;
- manter a televisão desligada nas refeições em família.
A creche também é espaço de linguagem: conversa, música, leitura e brincadeira com outras crianças. Vale perguntar à professora como a criança se comunica por lá, se entende as instruções da rotina e se ela percebeu algo diferente. Essas observações são úteis na consulta. Veja também leitura para bebês: por que e como.
O que isto não diz#
- As tabelas não coincidem, e está tudo bem. A Caderneta põe as frases de duas palavras na faixa de 24 a 30 meses; o CDC as lista aos 2 anos, pelo critério de 75% das crianças. São métodos diferentes. Compare sempre dentro da mesma fonte e leve a dúvida ao pediatra.
- Falar pouco não é diagnóstico. Pode ser uma variação dentro do esperado, uma questão de audição, um atraso de linguagem ou parte de outro quadro. Só a avaliação diz.
- Esperar sem avaliar não é a recomendação. Segundo a SBP, a revisão dos marcos do CDC em 2022 teve entre os objetivos desencorajar a postura de esperar para ver quando há sinais de atraso.
- Não citamos números de vocabulário aos 2 anos. As fontes que consultamos trazem estimativas diferentes para essa idade, então preferimos não fixar um número.
Perguntas frequentes#
É normal criança de 2 anos não falar?
Não falar nada aos 2 anos é sinal de atraso de fala segundo documento da SBP de 2024 e merece avaliação do pediatra. Falar poucas palavras pode estar dentro do esperado, mas também vale conversar na consulta, levando em conta a compreensão e os gestos da criança.
Com quantos meses a criança fala as primeiras palavras?
A Caderneta da Criança diz que, em torno de 1 ano, o bebê já fala algumas palavras além de “mamã” e “papá”. No quadro de marcos, “diz uma palavra” está na faixa de 12 a 15 meses e “fala 3 palavras”, na de 15 a 18 meses.
Qual profissional procurar se meu filho não fala?
Comece pelo pediatra, que avalia o desenvolvimento como um todo e a audição. Conforme o caso, ele pode encaminhar para fonoaudiólogo, otorrinolaringologista ou outros especialistas.
Chupeta atrapalha a fala?
A Caderneta da Criança orienta não oferecer mamadeiras e chupetas, porque atrapalham a amamentação e podem causar problemas na dentição e na fala do bebê. Converse com o pediatra sobre o uso no caso do seu filho.
Como este número foi apurado
Marcos e faixas vêm da Caderneta da Criança, 6ª edição (Ministério da Saúde), conferidos visualmente nos quadros do PDF; os marcos em inglês vêm das páginas do CDC para 18 meses, 2 anos e 30 meses; os sinais de atraso, a relação com audição e a equipe de avaliação vêm do Documento Científico n. 148 da SBP (2024), lido na íntegra; a triagem para autismo vem do Manual n. 150 da SBP (2024); a Lei 12.303/2010 foi conferida no Planalto. Deixamos de fora números de vocabulário aos 2 anos e percentuais de prevalência de transtornos de linguagem, porque as fontes trazem estimativas que não conseguimos conciliar.
Fontes
- Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania, 6ª edição (ficha técnica de 2023): Estimulando o desenvolvimento com afeto; Sinais de deficiência auditiva e visual; Aleitamento materno; Marcos do desenvolvimento (6 meses a 3 anos e meio).
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico n. 148, Meu filho tem três anos e não fala, Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial, abril de 2024.
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação n. 150, Triagem Precoce para Autismo: M-CHAT-R/F, abril de 2024.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Learn the Signs. Act Early: marcos aos 18 meses, 2 anos e 30 meses.
- Lei 12.303, de 2 de agosto de 2010 (exame de Emissões Otoacústicas Evocadas), art. 1º.
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