Criança mordendo na creche: por que acontece, o que é esperado e o que a escola deve fazer
Publicado em · ACEI · A Casa da Educação Infantil
Criança mordendo na creche: por que a mordida é comum nos pequenos, o que a escola deve fazer na hora, como prevenir e quando procurar o pediatra.
Receber o bilhete dizendo que o filho levou uma mordida na creche, ou que foi ele quem mordeu, é uma das situações mais comuns e mais desconfortáveis da educação infantil. Uma criança mordendo outra não é, por si só, sinal de problema de comportamento nem de descuido da escola. Mas a repetição pede um plano. Neste guia reunimos por que isso acontece, o que é esperado em cada fase, o que a creche deve fazer na hora e quando procurar ajuda.
Criança mordendo: por que acontece#
O material para famílias do Head Start, programa federal de educação infantil do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, descreve a mordida como um comportamento comum, embora perturbador, entre crianças pequenas que começaram a andar. O documento lista motivos diferentes, que pedem respostas diferentes:
- Experimentação. Bebês e crianças pequenas exploram o mundo com a boca.
- Dentes nascendo. A mordida pode aliviar o desconforto da gengiva.
- Busca de independência e de controle. Morder produz uma reação imediata dos outros.
- Dificuldade de expressar o que sente. Frustração, raiva ou vontade de um brinquedo, quando ainda faltam palavras.
- Aprendizado da convivência. A criança ainda está aprendendo a brincar perto de outras.
- Estresse. Mudanças na vida da criança podem aumentar o comportamento.
Dois pontos da Caderneta da Criança (6ª edição, Ministério da Saúde) ajudam a entender o quadro. Os dentes de leite começam a nascer por volta dos 6 meses, e nessa fase a criança pode ter coceira nas gengivas e irritabilidade. E, ao falar de birras, a Caderneta lembra que a criança “muitas vezes ainda não sabe falar para negociar com os adultos”. No quadro de marcos do desenvolvimento da Caderneta, formar frases de duas palavras aparece na faixa de 24 a 30 meses. Antes disso, gestos e ações, inclusive morder, ocupam o lugar de muitas palavras.
Mordida na creche: o que é esperado em cada idade#
O Head Start trata a mordida como algo típico das crianças pequenas e diz que não é comum que ela continue na idade pré-escolar, dos 3 aos 5 anos. Quando continua nessa idade, o material recomenda buscar apoio profissional.
Em linhas gerais, isso significa:
- No berçário, a mordida costuma estar ligada à exploração e aos dentes. Mordedores e objetos seguros para levar à boca fazem parte da rotina.
- Entre 1 e 3 anos, entram em cena os outros motivos da lista: frustração, disputa por brinquedos, busca de independência e dificuldade de se expressar com palavras.
- Na pré-escola, a mordida repetida é menos esperada e merece conversa com a escola e com o pediatra.
O que a escola deve fazer na hora#
Para a criança que foi mordida, o Head Start orienta:
- lavar a pele com água morna e sabão quando houver ferida;
- aplicar compressa fria;
- avisar a família;
- sugerir avaliação médica se a pele rompeu ou se aparecerem sinais de infecção.
Para a criança que mordeu, a recomendação é manter a calma e usar frases curtas e firmes, como “Não pode morder. Morder machuca”. Em seguida, mostrar o efeito (“ele está chorando”) e, se possível, convidar a criança a ajudar a cuidar do colega. O material diz para não gritar, não exagerar na reação e não fazer longos discursos, que a criança pequena não acompanha. E diz com todas as letras: não rotular, não humilhar e não isolar a criança que morde.
Há também um limite legal. O artigo 18-A do Estatuto da Criança e do Adolescente, incluído pela Lei 13.010/2014, garante à criança o direito de ser educada “sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante”. A regra vale para os pais e para qualquer pessoa encarregada de cuidar da criança ou educá-la, o que inclui a equipe da creche. O mesmo artigo define tratamento cruel ou degradante como a conduta que humilhe, ameace gravemente ou ridicularize. Morder a criança de volta “para ela sentir” é uma ação física com a intenção de punir e se encaixa na ideia de castigo físico descrita pela lei.
Como prevenir novas mordidas#
O Head Start recomenda observar e elogiar quando a criança age com cuidado com os colegas, oferecer materiais variados para explorar com as mãos e com a boca, dar escolhas simples adequadas à idade e desencorajar brincadeiras de “fingir que morde”. Para a criança que morde com frequência, entender em que situação isso acontece ajuda a agir antes.
Na creche, algumas medidas práticas possíveis:
- anotar quando e onde as mordidas acontecem: disputa por brinquedo, fila, hora antes do almoço, fim da tarde;
- manter um adulto mais próximo da criança nesses momentos;
- ter brinquedos repetidos, para reduzir disputas entre os menores;
- ensinar palavras e gestos para “meu”, “espera” e “não quero”.
A supervisão depende de quantos adultos estão na sala. Explicamos o que se sabe sobre isso em quantas crianças por professor na creche.
Perguntas para fazer à creche#
Se o seu filho foi mordido ou está mordendo, uma conversa com a professora ou a coordenação costuma render mais que o bilhete. Algumas perguntas:
- Em que situação a mordida aconteceu e quem estava por perto?
- Como a escola registra as ocorrências e como avisa as famílias?
- A escola informa o nome da outra criança? Qual é a política e por quê?
- Se é recorrente, existe um plano: mais supervisão, mudança de rotina, acompanhamento da coordenação?
- Como casa e escola podem usar a mesma frase e a mesma resposta?
Essas perguntas também servem na visita antes da matrícula. Elas estão no nosso roteiro de visita à creche.
Quando procurar ajuda#
O Head Start recomenda buscar orientação profissional se a criança continua mordendo ao longo de várias semanas, se parece não se importar com as consequências ou se a mordida persiste na idade pré-escolar.
A Caderneta da Criança inclui, entre os sinais de alerta para o desenvolvimento, a criança que “apresenta muita agressividade”. A orientação é conversar com os profissionais de saúde, de educação e de assistência social. A Caderneta também lembra que, na maioria das vezes, não é nada sério, mas quanto mais cedo uma dificuldade é identificada, melhores são os resultados. O primeiro passo é o pediatra.
Mordidas costumam andar junto com birras e disputas típicas dessa idade. Tratamos disso em birra aos 2 e 3 anos.
O que isto não diz#
- Uma mordida não é diagnóstico. Nem da criança que mordeu, nem da escola. É um comportamento comum na idade.
- Frequente não é aceitável sem resposta. Mordidas repetidas pedem plano da escola e conversa com a família.
- Não temos dado por escola. O Censo Escolar não registra ocorrências como mordidas, e este site não tem essa informação sobre nenhuma creche.
- As orientações citadas vêm de um programa dos Estados Unidos. Usamos o material por ser uma fonte oficial e específica sobre o tema. A regra legal citada, o artigo 18-A do ECA, é brasileira.
Perguntas frequentes#
É normal criança mordendo na creche?
É um comportamento comum em crianças pequenas, segundo o material do Head Start, ligado a dentes nascendo, exploração, frustração e falta de palavras. O que se espera da escola é resposta rápida, calma e um plano se as mordidas se repetirem.
Quando a mordida precisa de avaliação médica?
Segundo o material do Head Start, quando a pele rompeu ou quando aparecem sinais de infecção. Na hora, a orientação é lavar com água morna e sabão e aplicar compressa fria.
Devo morder meu filho de volta para ele aprender?
Não. O material do Head Start orienta resposta calma e firme, sem humilhar. No Brasil, o artigo 18-A do ECA garante à criança o direito de ser educada sem castigo físico, seja em casa, seja na escola.
Até que idade morder é esperado?
A mordida é típica das crianças pequenas. O Head Start diz que é incomum que continue entre 3 e 5 anos e, nesse caso, recomenda procurar ajuda profissional, começando pelo pediatra.
Como este número foi apurado
Motivos, primeiros cuidados e condutas vêm da ficha para famílias sobre mordidas do Head Start (Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA), lida em headstart.gov; dentição, falas sobre birra, marco de frases e sinais de alerta vêm da Caderneta da Criança, 6ª edição, conferida no PDF; o artigo 18-A do ECA foi conferido no Planalto. Não encontramos documento brasileiro oficial específico sobre mordidas, e o Censo Escolar não registra ocorrências por escola.
Fontes
- Head Start (Office of Head Start, Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA). Biting: A Fact Sheet for Families, atualizado em 2024.
- Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania, 6ª edição (ficha técnica de 2023): Desenvolvimento dos dentes; Estimulando o desenvolvimento com afeto; Sinais de alerta; Marcos do desenvolvimento de 1 ano e meio a 3 anos e meio.
- Lei 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), art. 18-A, incluído pela Lei 13.010/2014.
Achou um erro?
Escreva para contato@acei.com.br. Erro confirmado é corrigido e a correção fica registrada no rodapé do texto, com a data. Não apagamos histórico.