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Desfralde: quando começar, sinais de prontidão e como combinar com a creche

Publicado em · ACEI · A Casa da Educação Infantil

Desfralde: a idade em que costuma começar, os sinais de prontidão listados pela SBP e como combinar o processo com a creche para não confundir a criança.

O desfralde, que os pediatras chamam de treinamento esfincteriano, é o processo em que a criança aprende a perceber a vontade de fazer xixi e cocô, chegar ao penico ou ao vaso sanitário e deixar a fralda. Não há uma data fixa para começar. A orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é observar os sinais de prontidão da criança, e não apenas a idade. Neste guia reunimos o que dizem a SBP, a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e a Caderneta da Criança do Ministério da Saúde, e como alinhar o processo com a creche.

Em que idade começa o desfralde#

O Manual de Orientação “Treinamento esfincteriano”, publicado em setembro de 2019 pela SBP em conjunto com a SBU, informa que crianças com desenvolvimento típico começam a mostrar as habilidades de prontidão e a maturidade física necessárias geralmente entre 24 e 36 meses de idade. O documento cita um estudo brasileiro em que a idade média de início foi em torno de 22 meses e a média de conclusão, 27,4 meses, com meninas concluindo mais cedo. O processo fisiológico pode levar de 6 a 12 meses.

Média não é meta. O próprio manual ressalta que cada criança tem um desenvolvimento individual e que “somente a idade não é um bom critério” para decidir quando começar. Pela orientação da SBP, por volta dos 24 meses os sinais de prontidão devem ser avaliados pelo pediatra.

A Caderneta da Criança (6ª edição) diz, na parte sobre crianças de 1 ano e 6 meses a 2 anos, que perto dos 2 anos as crianças começam a falar ou a apontar quando fazem cocô ou xixi. A orientação é incentivar o uso do penico ou do vaso “em clima de brincadeira, sem pressioná-la ou repreendê-la”. Na faixa de 2 a 3 anos, a Caderneta acrescenta que a retirada das fraldas depende muito da presença motivadora dos cuidadores.

Sinais de prontidão para o desfralde#

O manual da SBP e da SBU lista 21 sinais de prontidão. Eles não são uma prova em que a criança precisa acertar tudo: servem para a família e o pediatra perceberem se aquele é um bom momento. Alguns exemplos da lista:

  • andar e sentar de forma estável, sem ajuda;
  • entender e seguir comandos simples;
  • saber puxar a roupa para cima e para baixo;
  • usar palavras, expressões do rosto ou movimentos que indicam vontade de urinar ou evacuar;
  • ficar seca por duas horas ou mais durante o dia;
  • avisar que fez xixi ou cocô na fralda, incomodar-se com a fralda molhada ou pedir para ser trocada;
  • mostrar interesse quando outras pessoas usam o banheiro, ou interesse por cueca ou calcinha;
  • conseguir ficar sentada no penico ou no vaso por 3 a 5 minutos;
  • querer fazer as coisas sozinha e se orgulhar das novas habilidades.

O manual também desaconselha começar em um momento de estresse na vida da criança ou da família, como uma mudança de casa ou o nascimento de um irmão. Se a criança está entrando na creche agora, vale conversar com o pediatra sobre começar o desfralde antes, durante ou depois da adaptação na creche.

Como a SBP orienta o processo#

O método descrito no manual é a chamada Abordagem Orientada para a Criança, recomendada pela Academia Americana de Pediatria. Em resumo: só começar quando houver sinais de prontidão, usar apenas elogios como reforço e não oferecer guloseimas nem brinquedos como prêmio. O manual é explícito: nenhuma punição.

  1. Apresentar o penico. Ele deve ser tratado como objeto da criança, de preferência escolhido com ela, e colocado em lugar de fácil acesso. No começo, ela pode sentar vestida, só para se acostumar.
  2. Criar uma rotina. O manual sugere horários como ao acordar, depois das refeições ou lanches e antes de dormir. Não é recomendado manter a criança sentada mais de 3 a 5 minutos esperando: pode parecer castigo.
  3. Tirar a fralda. Depois que a criança usou o penico com sucesso por uma semana ou mais, a fralda pode ser retirada durante o dia. O manual recomenda evitar voltar a usá-la de dia, o que pode confundir a criança.
  4. Aceitar os escapes. Perdas de xixi e cocô são inevitáveis até o fim do processo. A orientação é agir com naturalidade, sem criticar nem repreender.
  5. Ensinar a higiene. A criança ainda precisa de ajuda para se limpar. Meninas devem aprender a limpar da frente para trás. Lavar as mãos faz parte do processo.

Penico ou vaso? O manual diz que o penico costuma ser preferido no início, por dar mais segurança e melhor apoio às pernas. Se a família optar pelo vaso, deve usar redutor de assento e apoio para os pés. Roupas fáceis de tirar ajudam, e o manual observa que o processo tende a ser mais fácil nos dias quentes.

Desfralde na creche: como combinar com a escola#

O manual da SBP diz que o ideal, quando a criança frequenta escola ou creche, é que o treinamento comece ao mesmo tempo em todos os ambientes. Entre as causas de insucesso, cita o desfralde iniciado em apenas um dos lugares em que a criança convive e a falta de uniformidade entre casa e escola.

O documento também traz uma orientação dirigida às escolas: evitar que a escola defina um período de desfralde para a sala inteira, sem considerar a idade, o nível de desenvolvimento e os sinais de prontidão de cada criança.

Na prática, vale combinar com a professora ou a coordenação:

  • quando começar, para que casa e creche iniciem juntas;
  • as palavras usadas para xixi e cocô, que o manual recomenda manter consistentes;
  • os horários em que a criança é levada ao banheiro e se há penico ou redutor disponível;
  • quantas mudas de roupa mandar e como a escola devolve a roupa suja (veja a lista do que levar para a creche);
  • como a escola vai avisar a família sobre escapes, recusas ou dor ao evacuar.

O Censo Escolar não traz nenhuma informação sobre como cada creche conduz o desfralde. Isso só se descobre perguntando, de preferência na visita antes da matrícula. Nosso roteiro de visita à creche tem outras perguntas úteis.

Quando procurar o pediatra#

Segundo o manual, se a criança se recusa a participar, sugere-se uma pausa de um a três meses antes de tentar de novo. Se ela se sente pressionada e começa a segurar o xixi ou o cocô, o processo deve ser interrompido.

O documento indica que o pediatra deve investigar mais a fundo nestes casos:

  • tentativas repetidas sem sucesso;
  • criança com 36 meses ou mais que ainda não mostra sinais de prontidão;
  • criança com 48 meses ou mais que ainda não concluiu o desfralde durante o dia.

A prisão de ventre merece atenção especial. O manual cita como sinais dor para evacuar, esforço excessivo ou evacuar menos de 4 vezes por semana, e orienta tratar a constipação antes de iniciar o desfralde. Voltar a precisar de fralda depois de já ter largado, ou ter infecção urinária durante o processo, também são situações para levar ao pediatra.

O que isto não diz#

  • A média não é prazo. Os 27,4 meses vêm de um estudo citado pelo manual. Muitas crianças saudáveis desfraldam antes ou depois disso.
  • Os sinais não são uma lista obrigatória. São indícios que o pediatra avalia em conjunto com a família.
  • O manual trata de crianças com desenvolvimento típico. Crianças com deficiência ou condições de saúde específicas podem precisar de um plano feito com a equipe que as acompanha.
  • Não sabemos como cada creche faz. Não temos dado sobre a política de desfralde das escolas listadas neste site.

Perguntas frequentes#

Com quantos anos a criança deve largar a fralda?

Não há idade única. A SBP informa que os sinais de prontidão aparecem geralmente entre 24 e 36 meses e que a idade sozinha não é bom critério. A investigação pelo pediatra é indicada quando a criança tem 48 meses ou mais sem ter concluído o desfralde diurno.

A creche pode desfraldar a turma toda ao mesmo tempo?

O manual da SBP e da SBU recomenda evitar que a escola defina um período único para a sala, sem olhar a idade, o desenvolvimento e os sinais de prontidão de cada criança. O ideal é combinar com a família e começar ao mesmo tempo em casa e na creche.

Posso dar doce ou brinquedo como prêmio?

A orientação da SBP é usar elogios, inclusive pela tentativa de avisar, e não oferecer guloseimas nem recompensas materiais. Punições também não são aceitas pelo manual.

É normal fazer xixi na roupa depois de desfraldada?

Durante o processo, sim: o manual diz que perdas são inevitáveis e devem ser tratadas com naturalidade. Se a criança já tinha concluído o desfralde e volta a precisar de fralda, o manual recomenda uma avaliação mais aprofundada com o pediatra.

Como este número foi apurado

Idades, sinais de prontidão, método e sinais de alerta vêm do Manual de Orientação Treinamento Esfincteriano (SBP e SBU, 2019), lido na íntegra no site da SBP; as orientações às famílias vêm da Caderneta da Criança, 6ª edição (Ministério da Saúde), conferida no PDF. Não temos dado sobre como cada creche conduz o desfralde: o Censo Escolar não coleta essa informação.

Fontes

  • Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Urologia. Manual de Orientação: Treinamento esfincteriano. Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento, setembro de 2019.
  • Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania, 6ª edição (ficha técnica de 2023), seção Estimulando o desenvolvimento com afeto (1 ano e 6 meses a 2 anos; 2 a 3 anos).

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